segunda-feira, 19 de julho de 2010

Ao Compasso.

Grande texto retirado do site FRATRES IN UNUM, dou os Parabens aos Editores.



Nunca me imaginei pisar aquela terra longínqua. Conhecia a fama daquelas Províncias Aglomeradas do Norte, mas sua história tão distinta de meu povo me fazia pensar: ali nunca estarei. Mas no Compasso da História, ali fui parar.
Um povoado interessante, acolhedor e sofrido. Não só pelo deserto que o envolve, mas pelo deserto que o invade… Aquela gente de fé recebeu a graça dos antigos ibéricos, de conhecerem o Rei dos reis e o Senhor dos Senhores. Cristo Rei, do alto de seus céus, recorda-lhes a fé que receberam no Batismo, mas os filhos daquele chão, já não se lembram daquela pia… Eles não são os únicos. Lembro-me de tantos povoados do mundo, por onde naveguei, e que estão à deriva da graça, por falta de seus dispensadores, ou por falta de que sejam autênticos pastores…
Vem-me à memória um famoso Sermão do Padre Vieira, aquele grande pregador de nossas plagas, no Maranhão do século XVI, numa festa de Santo Antonio:
“Vós, diz Cristo Senhor nosso, falando com os pregadores, sois o sal da terra: e chama-lhes sal da terra, porque quer que façam na terra o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção, mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção? Ou é porque o sal não salga, ou porque a terra não se deixa salgar. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores não pregam a verdadeira doutrina; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina que lhe dão, a não querem receber. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores dizem uma cousa e fazem outra; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem, que fazer o que dizem. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores se pregam a si e não a Cristo; ou a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, em vez de servir a Cristo, servem a seus apetites. Não é tudo isto verdade? Ainda mal.
Suposto, pois,  que o sal não salgue ou a terra se não deixe salgar; que se há-de fazer a este sal, e que se há-de fazer a esta terra? O que se há-de fazer ao sal que não salga? Cristo o disse logo: Quod si sal evanuerit, in quo salietur? Ad nihilum valet ultra, nisi ut mittatur foras et conculcetur ab hominibus. (Mateus V, 13) Se o sal perder a substância e a virtude, e o pregador faltar a doutrina e o exemplo, o que se lhe há-de fazer, é lançá-lo fora como inútil, para que seja pisado de todos. Quem se atreverá a dizer tal cousa, se o mesmo Cristo não a pronunciara? Assim como não há quem seja mais digno de reverência e de ser posto sobre a cabeça que o pregador que ensina e faz o que deve; assim é merecedor de todo desprezo e de ser metido debaixo dos pés o que com a palavra ou com a vida prega o contrário.”
Quão atuais são estas advertências de Padre Vieira e quão dolorosamente o sabemos… E desta terra do Compasso, lembro-me do Rebanho sofrido e confuso, entristecido e chagado…
Onde estão os pastores que deveriam guardar o rebanho? Onde o báculo que governa e protege a ovelha desprotegida? Onde as palavras de alento ao que é bom e de crítica ao mau? Ah… Aí está o pior deserto… Não o da sequia da terra, ou das agruras das pedras, nem do sol estonteante, mas sim da falta de pastores que falem, que preguem, que ensinem, que corrijam, que confortem, que protejam…
Onde estão estes homens? Por favor, se alguém o souber, grite-me e correrei atrás deles, seja um único, seja um pequeno, seja um infante… E eu me prostrarei aos seus pés e lhe direi: Pai, salva minha alma… Corrija meus defeitos… Acalenta meu coração sofrido e tentado… Fala-me do Céu e de Deus!!!
Um sofrido e chagado amigo da Cruz!

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